«lava as mãos antes de te sentares»

É Dezembro. À mesa alguém diz – é cobardia, enquanto mastiga carne de porco com batatas e cogumelos assados. Olho o meu prato. As portas entreabrem-se. Há uma sombra que cai. Não é fácil cair. O corpo embate contra a rudeza dos objectos, neste caso, o vazio de uma escadaria é mais preenchido do que se imaginaria. O corrimão negro mais afiado. Levanto o copo – não é cobardia, digo, ao lembrar o meu primeiro suicida. A carne está demasiadamente mal assada para o meu gosto. Todos os guardanapos estão manchados. Uns de carne outros de vinho. Não deveria estar à mesa. Não nesta mesa. Ou em qualquer outra. Sou daquele tipo de gente que não se senta à mesa. As mesas, desde há anos, são pequenos tabuleiros que aquecem o palato à falta de língua compreensível de que falem as paredes. Cá em casa sempre comemos só. Nunca ninguém disse que era uma cobardia. Sou o melhor de mim quando me calo.

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