do voo

asa

 

Entre o metal e a superfície, verto uma linha. Enquanto, à tona, ceifo pétalas de bronze e vermelhos inacabados. Como uma impressão. Uma revelação sobre a textura rugosa do papel que deixa em aberto os espaços onde não mais me amanhecerão árvores entre os pulsos. Lavro, debaixo da língua, a terra, onde à falta de perícia, não haverá alimento que me socorra neste Inverno. Sobre uma cadeira, olho em redor o chão molhado, a dispersão; e sou, só por uma vez, aquela imagem quase sem pele a quem crescem penas atrás das costas, à falta de quem lhe cuide do peito aberto, por uma breve eternidade. Talvez o homem que os pintava soubesse também disto: da falta de voo, dos espaços deixados vazios e do peito desocupado onde, no lugar do sangue, cantam pássaros. Sem penas, acordo com o som das asas que, noite adentro, me ocupam o corpo, antes da fuga. Ouço-os. Aos pássaros. Cruzo o peito, fecho-lhes a janela. Que é preciso: um som mais longo que uma fuga que me mantenha nos dias deixados em branco. Como este.

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