«a história» – I

Tenho nove anos. O sol seca o sangue. Quando caímos, caímos juntas: a minha bicicleta e eu. Tenho os tornozelos golpeados pela corrente e gosto de sentir a roda a girar contra a minha pele até parar. O céu não é azul ou não é apenas azul. A minha bisavó cerze uma longa renda para a mesa de jantar e cobre as nuvens com ela. O meu bisavô sorri-me desde uma cadeira de pano listado a azul e branco. O meu pai e eu deitámos-nos sobre uma manta inglesa no início do milheiral e, enquanto ele me lê Pela Estrada Fora, eu pergunto-lhe o porquê de uma flor vermelha ao nosso lado. Na tarde em que todas as flores improváveis do mundo nasceram eu tinha a cabeça deitada sobre o peito do meu pai e adormecia escondida no meu chapéu de palha. Junto à cozinha havia um sino que a minha mãe tocava e, à hora do almoço, ela e o meu tio Frederico gritavam os nossos nomes até ao fim da mata. Só aí fui Beatriz.

Depois do alpendre em granito e antes do roseiral da minha bisavó, havia a vinha e duas mesas redondas pintadas de branco. A guerra e uma sede imensa de quando o meu tio contava a história da sede em África. À noite havia whisky, charuto, a barba negra do meu tio, o riso dourado do meu pai, o bigode do meu tio Francisco, as mulheres e as suas xícaras de café; eu, deitada na espreguiçadeira mais perto das rosas de Santa Teresa, a Lua que crescia por detrás da maior árvore da mata, e a ideia que a alegria é um casaco contra o frio da noite.

Quando o meu tio Francisco foi para a guerra não disse nada a ninguém e só a bordo mandou um telegrama a minha avó. A minha mãe deu-lhe o Adeus às Armas e aí começou a tradição dos homens da casa. O meu tio Frederico, ao fim do dia, com o livro pousado sobre o peito. Tenho uma infância de carabina. O tiro certeiro contra uma macieira. Os meus bisavôs, os meus tios e os pais nunca acabam. A bicicleta repousa agora contra uma parede das cavalariças. Ficou com a casa e, a casa, onde jamais voltarei a entrar, guarda o meu sangue entre a ferrugem da minha bicicleta. O meu tio Francisco continua a sorrir-me enquanto me bate à porta da Avenida Rodrigues de Freitas com a italiana, como chamávamos à bicicleta, com um enorme laço branco.

E quando a noite escurece ainda mais, fecho os olhos e vejo os meus nove anos, as seis horas da madrugada, o meu tio Frederico e o meu primo, a fazerem pontaria aos pássaros enquanto o sol nascia por detrás do tiro e as suas sombras ardiam sobre o milheiral. O meu pai. Sem guerra ou armas. A voz que nomeava os planetas: o movimento perfeito do mundo no seu peito. A minha mãe, e o meu nome. O que nunca se acaba.