Da crueldade

Cruel. Chamam-me. Que talvez seja de mim a crueldade das costas que se viram, das mãos que se fecham ou da boca que se cala. Sou, de veias, vidro partido, e do meu sangue apenas posso dizer «somente sangue» enquanto lavo o que me mancha. Sem nódoa sou corpo inteiro, cabelo castanho escuro, e um espelho onde talvez veja passar a minha própria sombra. Sei do mundo o que dele vi: que nunca foi de mim, o desvio. Recta, sigo o choro de velhos; as asas partidas das gaivotas; os gatos atropelados e de olho caído sobre o asfalto; a terra e o único cão que levei ao colo na tarde em que as nuvens subiram desde o fundo do Mondego só para dançarem sobre as nossas cabeças. Sou da água como do chão e quando me pedem lume ofereço névoa por ser dela o princípio da chama. De onde venho ninguém mais virá, e talvez seja apenas isso que haja para dizer, enquanto ouço «cruel» e sorrio. Por saber de todas as vezes em que é a crueldade é chamada no lugar dos pulsos que, por lhes correr o vidro, se abrem e deixam cair sobre a terra os grilhões que um beijo planeou. Sou cruel, o mesmo é dizer que sou do vidro que corta e que me abre portas e janelas na casa do meu corpo de onde escrevo estas linhas.