algum lado

Alguém, em algum lado, deve ser feliz. Deve ter saúde. Uma família com a indispensável tristeza que faz das famílias, famílias. Um emprego que, pode não ser perfeito, mas que lhe serve ao tecto sobre a sua cabeça, a um ou dois vícios relativamente incólumes, e ao conforto de uns pés quentes. Não deve ter medo, ou consciência do medo. Acreditará, indubitavelmente, que o fim está longe e que, chegado o seu tempo, haverá alguém à sua cabeceira. Talvez um filho. Uma mulher ou homem. Um irmão. Ou pelo menos um amigo. Alguém que, por afecto e não caridade, lhe toque a mão. Nunca terá sobras. Nem achará conforto pelos mortos estarem mortos, por saber que, acaso estivessem vivos, não seriam felizes. Gosto de pensar nisto. Que embora eu não seja feliz e não conheça entre os meus, mais íntimos, alguém feliz, isso existe: alguém, em algum lado, feliz.

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