«Lição de Anatomia»

Se me perguntam pelo medo, respondo o medo na História. De quando, na Idade Média, se acreditava que, no Juízo Final, todos – crianças, homens, mulheres, velhos e velhas – se reergueriam com a mesma idade de Cristo. Por volta, da mesma altura, em que, o próprio, se terá questionado sobre a inconveniência de ver o mundo a seus pés. Crianças envelhecerão e velhos rejuvenescerão. Enfim, uma confusão em que talvez seja inútil procurar entre a multidão os rostos certos. Penso nisto, e penso na morte que levanto a cada manhã; enquanto, um velho, me mostra as fotografias dos seus filhos. Entre retratos, um par ou dois de fotografias de quadros que pintou. Coisas célebres. Henrique VIII e as suas esposas. Uma tríade de Camões, Bocage, Pessoa, seguida por uma outra que desconheço. Uma «Lição de Anatomia» reconvertida em «Lição de Culinária». Tem noventa e três anos, pinta. Foi cirurgião, diz-me, enquanto, sobre a mesa, força o indicador direito sobre um bisturi invisível. A precisão. Um homem que se acostumou a rasgar pele dança bem entre os contornos dos rostos. Talvez ele saiba, quando o tempo chegar, reconhecer cada um. Eu, por certo, não o reconheceria a ele.

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