pérolas

Por vezes sonhava e a vida parecia-lhe, por si, um sonho; enquanto a florista de navalha na mão lapidava espinhos, folhas nascidas e por nascer: a celeridade límpida em que de um caule se extraí o corpo mais simples de uma manhã. Talhadas as rosas, dispensou as verduras com que as mulheres emolduram o ramo; em breve, diante de um espelho, de costas voltadas, olhando a parede ruinosa afagaria com o colo das mãos gretadas, as pétalas pintadas de anil. Olhando-as e, sem as olhar, vendo-se, de costas voltadas: o reflexo negro do seu cabelo no espelho: a voz da morta – que talvez me doam os cabelos compridos.
Tinha vozes. Indiferentes a géneros. Densas como penas brancas sobre o parapeito ou como o mercúrio ao partir-se a febre contra o chão; recordava-se: o metal, entre os estilhaços: as pérolas mais difíceis sobre o chão, tal como a voz, a de um cabelo demasiado longo para a dor. A memória é um sonho. Dos que tinha. Partes de dias que compunham uma desordem apenas compreensível diante da paisagem mais profunda dos recortes das casas vistas de sua casa.
Parara nas pérolas. A cor da alvorada em mercúrio. Por um instante, o acidental do discurso de um homem com quem, casualmente partilhara um banco antes da partida e alguns dias após a chegada. Da sua voz, nitidamente prateada. As sílabas previsivelmente lunares. Havia uma horizontalidade que lhe repugnava. O rasto de uma voz construída desde o som da queda é uma febre, uma cama doente e, um súbito desejo de ser de pé. A verticalidade invertida do ramo satisfazia-a.
Ao olhá-lo suspenso pelo fio de junta, imaginou como pode um punhado de pés se converter num único e indissolúvel corpo. A pouco tempo o anil daria lugar ao vermelho. Soube naquele instante, ao olhar o pé do ramo invertido, que é da sépia o fim do vermelho. Sonhava sanguínea como nos retratos dos outros na infância. Tivera uma infância de retratos, o equivalente a uma certa neblina que sobre as pestanas desenrola os anos adultos. E sobre o qual trata a ciência dos males da distância sumida ao chamar-lhe miopia.
Tinha sonhos. Nunca seria florista. Pérola. Ou uma voz que alguém pudesse dizer – prata. A navalha lá longe desbastava ainda o que de desnecessário persiste, pensou, ao achar que talvez aquele fosse um bom dia para cortar o cabelo.