azul

Um louco senta-se ao meu lado. Fala-me da vida e da pouca vontade com que asperge os pulmões congestionados com um pouco mais de morte. Lembra-me um outro que me falava da semente, do nosso próprio fim crescendo-nos no peito até que as folhas despontem no fim dos pulsos. Ou a minha avó, ao acordar, cansada, chamando o meu pai porque a morte, a morte, é um vento que nos puxa pelas costas quando nos sentamos à margem da cama. Biografo-me a cada dia. Rebiografo-me. À velocidade que é, diz-me o homem de estetoscópio, – de Ferrari. O ressoar pouco sinfónico do coração que me empurra a respiração. Cada sopro num mergulho, numa forma de afogamento que toma por água qualquer elemento, qualquer rosto. Não me recordo de quando me disseram da morte. Sou biograficamente, intimamente, azul, ainda que desenhe figuras curvilíneas com o olhar ao parar casualmente sobre os teus lábios. O meu próprio fim. Este que se reinventa em frases partidas só pelo gosto de beber de um parágrafo a parte da história que aqui se não conta.

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viagem 33

Passageira de mim. Paisagem dentro de paisagem. Lá fora a sépia imaginária dos campos de trigo, o som abafado do aço contra o aço, a recta, a linha indistinta que me atravessava as palmas das mãos. Que me levava de volta a essa Hispânia aquecida nas páginas volumosas das vozes que só à noite se erguiam, pela vontade de me despertarem à superfície do sangue. A planície arterial que serviria de pulso ao movimento circular com que ofereceria ao homem-viagem o bilhete da ida sem regresso. Recordo-o agora, esse desejo de há vinte anos, neste preciso instante em que com as mesmas mãos escondo, sem pudor, o coração na algibeira sem forro: o mesmo abrigo onde acolhi todos os dilúvios. E, por cada um, ombros outros, senhores de corpos outros ou de paisagens menos áridas do que esta minha pele moldada a partir do mármore delapidado com que se remodelam os canteiros aos cemitérios. A viagem planeada, menos sépia, antes gris, menos quente, mais represa presa no fundo da garganta; e, por cada passo, uma e outra voz, todas elas distintas, dizendo-me do tempo. Da imperativa necessidade de enlutar de chamas o espelho só pela salvaguarda de um rosto: este. Que veste de montanhas o olhar ao erguer, a cada manhã, todas as marés contra o reflexo de uma pulsação que desafia a ferocidade de um terramoto.

«Lição de Anatomia»

Se me perguntam pelo medo, respondo o medo na História. De quando, na Idade Média, se acreditava que, no Juízo Final, todos – crianças, homens, mulheres, velhos e velhas – se reergueriam com a mesma idade de Cristo. Por volta, da mesma altura, em que, o próprio, se terá questionado sobre a inconveniência de ver o mundo a seus pés. Crianças envelhecerão e velhos rejuvenescerão. Enfim, uma confusão em que talvez seja inútil procurar entre a multidão os rostos certos. Penso nisto, e penso na morte que levanto a cada manhã; enquanto, um velho, me mostra as fotografias dos seus filhos. Entre retratos, um par ou dois de fotografias de quadros que pintou. Coisas célebres. Henrique VIII e as suas esposas. Uma tríade de Camões, Bocage, Pessoa, seguida por uma outra que desconheço. Uma «Lição de Anatomia» reconvertida em «Lição de Culinária». Tem noventa e três anos, pinta. Foi cirurgião, diz-me, enquanto, sobre a mesa, força o indicador direito sobre um bisturi invisível. A precisão. Um homem que se acostumou a rasgar pele dança bem entre os contornos dos rostos. Talvez ele saiba, quando o tempo chegar, reconhecer cada um. Eu, por certo, não o reconheceria a ele.

das grandes considerações

Falava-se de morte. O meu avô congratulava-se com a inauguração do primeiro crematório na cidade, notícia que muito o agradava, embora tal animação não fosse, de todo, partilhada, pelo seu melhor amigo, o coveiro. Queria seguir em cinzas, como dizia. Que isso de se ter o corpo a apodrecer lhe parecia coisa pouco higiénica. O meu pai rematava que sim, que lhe parecia bem, que também o quereria. Com ele a minha mãe, restando eu e a minha avó, ela protestando a favor da caixa e eu, com seis ou sete anos pensado que não lhe via grande mal, no caixão.

Houve sempre morte e nem o chá de tília ou as bolachas caseiras a apartavam das nossas refeições. Em que cenário o meu avô faria a sua mais longa amizade com o coveiro, ninguém sabe. Resta somente a certeza que, já à época dos poucos anos do meu pai, aquela crescia forte; tanto que ele passava os domingos escondido no cemitério esperando, cinematograficamente, pelo final dos enterros, de quando todos se vão entre suspiros negros e lenços lacrimejantes, para deitar a última mão de terra sobre o morto que nunca conhecera. Achava naquilo infantil graça, enquanto o pai do meu pai, esperava pela noite para ir jogar póquer sobre os ataúdes – a palavra preferida – ainda por estrear.

Esse era um dos lados do meu avô: charuto, whisky, póquer e caixões. Muito embora, quando chegou até mim, já não houvesse fumo, álcool ou jogo, antes rosas e os frasquinhos de vidro em que nos trazia, aos fins-de-semana, água-de-colónia caseira de pétalas caídas. Que o meu pai usava e que eu usava até alguém nos ter dito que era demais. Afinal como pode um só homem e uma criança levarem em si um roseiral inteiro? Algum tempo depois, para além de fiel abastecedor de cheiros, tornar-se-ia, o meu avô alentejano, no mais exímio ressuscitador de pássaros. Os meus.

Não sei se por isso ou por ironia me tenham dito da sua morte – foi-se como um pássaro. Cremado, terá sido voo em cinza. Durante algum tempo aprisionado no que mais se parecia a uma caixa de correio e onde levei a primeira flor a um morto. Uma cravina. O que me fez crer, aos meus doze anos, que talvez a morte fosse apenas uma carta que nunca parte e que nunca chega.

Faz hoje vinte anos que morreu. Das cinzas, ninguém sabe, expropriadas do involuntário envelope de metal. Apenas um lugar no mundo diz o seu nome. O meu pai. Não uma lápide, não um rótulo, apenas o meu pai, com o mesmo nome próprio e apelido. E eu, aqui. A sorrir-lhe ao passo lento, à sua mão ao deslizar-me sobre a cabeça até à nuca, de quando se despedia de mim, de quando olhava para mim.

Falávamos sempre de morte e na verdade ríamos da vida.

da parte #01

Saber do corpo por aquilo que dele se não diz: peito morada vala aberta. A procissão de rostos e o erguer do queixo acima da linha das ossadas. Dizer do nome o que dele se não vê, a mulher de costas fechadas, rosto aberto à janela de onde se olham as cameleiras e a sua queda em sépia por cada pétala de filho morto; dizer pelo nome o que dele se não sabe, levantar os dias em degraus só pela soma que subtrai ao tempo a ausência. Abrir entre os veios de um rio um abraço apenas navegável entre a transição planetar de uma década. Dizer pelo tempo, este fim, em que os vivos são os fantasmas dos mortos.

olhar

Há uma década que deixei a idade das pernas voltadas para o lado de fora da janela só para vertê-la para aqui, para o lado de dentro desta sala, a que todos os corredores dão início. E se me perguntas, por quem andas?, sustenho o peso dos nomes com a firmeza do passo, de mais passo, de mais uma porção de chão que desbravo, que não olho, porque não se pode olhar para onde já não nos olham. Gostava que me olhasses ainda. Tenho esta idade de corredores e de cordas de piano presas ao fim da voz e se me perguntas, por quem andas?, penso passo branco, tempo, e uma e outra vez, o teu rosto de quando me dizias – nunca feches os olhos, muito antes de te terem fechado os teus.

da gravidade

À altura do chão, rente aos olhos, um relógio de aço no pulso de um homem. A pele queimada, os seus dedos rodeando-me o braço, puxando-me para cima. Demorei-me sobre a laje de granito. Com a outra mão agarrou-me com mais força. Uma mulher aproximando-se da linha que tentei atravessar, sem sucesso, gritou-me – «chore». Eu já de pé e a mulher: «chore!». Com as pontas dos dedos afagando-me o colo da mão direita. «Quando se cai chora-se», disse. Um degrau mais alto e o pé falhando-me, o corpo em mergulho. O afundar-se em granito e, a velha, que não me largava a mão – «chore já!». O homem de olhos escuros «é melhor». Subiram-me a calça até ao joelho. Viram os cortes. Alguém chamava por água, uma garrafa de água, quando virei costas. Antes de o fazer, uma mão agarrou-me o pulso com força repetindo o mantra. Quando num instante estranho que talvez não tenha existido me lembrei de ti: «mas são só pedras». Isto para te dizer que me continuas a acontecer todos os dias.

fragmento

Sentado, com os braços ao longo da poltrona, o velho de mãos pendulares, olhava a idade da mulher. – Dá-me a mão, pediu. Preso à cadeira por um pedaço de tecido que lhe sustinha o abdómen, insistiu, enquanto baloiçava o peito. Não lhe vi o rosto. A cortina de plástico que entre as camas gere a intimidade alheia proibia-o. Do lugar de onde estava apenas a porta pesada e azul da casa de banho lhe servia de horizonte. As palavras desconexas que chegavam da televisão diziam coisas tão estranhas como «ganhe» ou «viva Portugal».

Do outro lado do quarto uma cama vazia é despedida e chegada. Lençóis refeitos aguardam novos males. Não sei, com vista ou para que dor, dormirá esta noite o meu pai. Como o não soube, muitos anos antes, quando, no lugar dele, era na tua boca que colocava cubos de gelo para enganar a sede, os rins, a vida toda. Quando nos despedíamos beijava-te no ombro. Gostaria que o tivesses ainda contigo, o beijo. Que te morasse ainda sobre a clavícula.

A idade da mulher afastou a mão do velho enquanto aumentava o volume da televisão.

«isto não é um poema»

Jurar da língua o que dela se não diz. Pensar «vontade de lágrimas» no lugar de «choro». Dizer do grito: «corpo inteiro». Estilhaçar vontades contra gestos e abrir, entre a cova das mãos, o suficiente do espaço para uma manhã de asas no sangue. Ser, sem tempo, a volumetria excessiva do teu peito enquanto respiras ao meu lado e te sonho os sonhos que nunca sonharás. Sentir pela pele o que por ela se não sente; aceitar tudo, negar tudo. Usar por pulsos os corredores mais longos da vida por acidente, caminhar o colorido das linhas que traçam a tragédia em números e achar em cada cama a abstracção de um reflexo que é meu.

terra

Já não nego lume, nem sapatos. E se me pedem por um pouco de terra puxo do bolso um nome há muito sepultado, por ser dele, as asas que me sustem ainda a respiração ao estende-la à janela. Junto as meias e lençóis que parecem crer mais na verticalidade da queda do que na minha habilidade para a salvação. Se me chamam – e não sei porque me chamam – prendo entre os dedos as linhas do meu nome, os fios mais finos do meu cabelo onde já não soam sinos, e envolvo-o entre as algas que discretamente deram à costa entre os meus pulsos; antes ou depois de me salgarem, uma e outra vez, os lábios. Onde, sem esforço, prendo rostos como estrelas por me ser da boca a cosmogonia mais perfeita deste ser-se nome em silêncio – mão fechada.

Da arte da fuga

Levava sapatos vermelhos e um desejo de seda que desenrolou colina abaixo pouco antes de regar a casa com gasolina e fumar o último cigarro. Caminha lenta. Por detrás, o incêndio: as chamas que engolem o espaço dos passos já dados. O que nunca soubeste – à fuga sobrepõem-se o fogo.

Caminho lenta. Caminho sol veias adentro enquanto me crescem raízes nas articulações dos dedos,

nada é novo,

tudo é último, enquanto a noite me desce sobre as pálpebras até ao espaço quieto em que não mais te direi; que é de mim o nome que se consome ou a pele que te é corpo e sobre a qual caminho vidro aceso, tempestade de metal. E o som, ínfimo, da voz que te diz – amanhã já não.

A mesma que te acende os pulsos à hora mais alta do grito – o irresistível que te há-de persistir no gesto. Esse a que não poderás fugir. Por não ser de ti a arte de bem arder.

futuro mais-que-perfeito

Contas-me que entre a culatra e a boca há uma alma lisa ou uma alma raiada, como uma garganta moldando a vibração das palavras quando te atiro ao peito os nomes das casas e das terras a que esquecemos o corpo. Dói mais aí, onde a terra se acerca de ervas vadias que, sobre o muro, nos impedem de tocar o centro nervoso dos dedos,

ou das mãos, as linhas traçadas na memória de um instante embrionário de que não tomamos parte,

à distância dos mares, à sombra do embarque, do desembarque, das emoções; passados a papel químico, medos e amores são menos que uma assinatura a que perdemos o rosto, ainda que lhe carreguemos o nome, atado no fim dos cabelos,

é das mulheres isto: nome de pai de pai, nome de mãe de mãe; que deveriam ser feitos mínimos sinos, tocando no movimento final de cada passo através do vento. Eles, sustendo-se no limite da queda e nós, as mulheres da casa, sacudindo os cabelos ao vento, dizendo, repetindo o nome a homens futuros.